Caros amigos

O calendário assinala hoje o dia 20 de Março de 2020 – dia do início da Primavera.

São três horas da tarde. Estou sentado no meu posto a matar o tempo sem poder sair de casa como toda a gente, atento às notícias que desfilam alinhadas nos vários canais de televisão. Sempre o maldito COVID-19. Cada vez há mais mortos em todo o mundo. Os infectados aumentam. O desânimo tenta travar a lucidez. O caos parece instalado em alguns países. Por cá temos já seis mortos. Cinco é o número de doentes já curados. Valha-nos isso.

A corrida ao desenvolvimento da vacina acelera, com as farmacêuticas a anunciarem os seus progressos. Quem será a primeira ? Que nos importa isso ? Isso são contas de outro rosário. Estamos todos a aguardar mais uma comunicação do governo sobre medidas mais específicas do estado de emergência decretado no dia 18 pelo senhor Presidente da República. Posso sair de casa ? Posso ir passear o cão ? Posso passear de carro ? Tudo inquietações de uma tribo comprometida com a obediência cívica.

Olho a rua através da minha janela salpicada de gotas que escorrem lentamente, de uma chuva miudinha que teima em não parar. As ruas estão desertas. Apenas um silêncio sepulcral que se funde com uma melancolia carregada de disfarce apazigua o meu espírito. A inquietude interior é tão real como o medo tenebroso de um contágio.

De repente olho fixamente uma imagem no meu computador que me provoca um imediato sobressalto.

Reparo que a foto do COVID parece uma bola coroada de flores, muitas coroas de flores. Lembrei-me de ter lido algures que era por isso que se chamava Corona. Num impulso, mais que um instinto, fechei os olhos.

Em silêncio perguntei a mim mesmo – Que Primavera é esta … ? Que Primavera será esta … ?!

E assim fiquei até agora.

Até quando … não sei.